A teoria da recapitulação, elaborada pelo zoólogo alemão Ernst Haeckel, é uma teoria com um forte apelo emocional que diz que a ontogenia recapitula a filogenia. “Ontogenia” e “filogenia” são termos que eu me deparei bastante na faculdade em função do meu gosto por biologia evolutiva, e significam respectivamente o desenvolvimento do indivíduo ao longo de sua vida, e a história evolutiva de sua espécie.
A teoria de que a ontogenia recapitula a filogenia, portanto, diz que os seres vivos revivem ao longe de sua vida a história evolutiva da sua espécie, especialmente no período embrionário: Haeckel sugeriu que o ser humano, por exemplo, passa por estágio de peixe, réptil e mamífero ainda no útero, como se toda a seleção natural que atuou sobre o Homo sapiens passasse num fast forward durante a gestação. Essa idéia é rejeitada pela biologia moderna, apesar do grande apelo como prova da teoria da evolução.
Hoje me dei conta de que o mesmo acontece com a religião: ao longo de nossas vidas, passamos pelos diferentes estágio espirituais pelos quais a humanidade passou. Quando somos crianças acreditamos em espíritos, e damos vontade a objetos e acontecimentos — se chove é porque as plantas têm sede, se tropeçamos numa pedra é porque ela é má. Somos essencialmente panteístas, e tudo no universo é vivo, mágico e dotado de uma “alma”.
Com o tempo os espíritos morrem, e passamos a acreditar em deuses, cada um com uma área de atuação específica. Se os gregos (e romanos) acreditavam em deuses da agricultura, deuses da guerra, deuses do amor, nós temos santos casamenteiros, padroeiros dos motoristas, policiais e até mesmo das causas perdidas. E em seguida aprendemos que existe um único deus (que ao mesmo tempo é três).
E aí começa a idade média das pessoas: é quando encontram conforto na religião, respostas, apoio dos iguais. A certeza de que deus existe e está sempre por perto vira um escudo contra qualquer afirmação contrária, e todos os meios justificam a conversão de alguém que ainda não encontrou a palavra divina. Assim como a Idade Média, esse período dura muitos e muitos anos, em função da sua relisiência e ataques externos.
Mas um dia alguns atingem o Iluminismo. Percebemos que o ateísmo — zero deus — é o passo natural no caminho panteísmo → politeísmo → monoteísmo. Percebemos que já passou da idade de ter amigos imaginários. E abandonamos dogmas, jogos de palavras, lógica circular e passamos a encarar o universo usando a ciência, a lógica e o racionalismo. Atingimos o fim da vida tendo reproduzido a história das religiões na Terra.
Eu tive esta idéia olhando para o céu à noite, e pensando que quando eu era adolescente eu via tanta magia no céu estrelado — e nessa hora imaginei que devia ser assim que os povos primitivos se sentiam ao olhar para o céu.
Resta saber se eu me tornei menos ou mais primitivo desde então…